Tomada de decisão do jovem jogador

Tomada de decisão do jovem jogador

O futebol é feito de decisões e quem melhor decide, mais perto está da vitória. Mas para além de decidir bem, importa também decidir rápido.

Aprender a decidir bem e rápido é um processo que deve ser efetuado nas primeiras idades de aprendizagem do jogo. Cabe ao treinador de formação fomentar este processo, não só nos seus treinos mas também em competição.

Para que o processo de tomada de decisão do jovem atleta seja integrado corretamente, o jogador precisa de errar e de perceber que decidiu mal. Mas isto não é suficiente. Precisa de perceber também qual seria a decisão (ou leque de decisões) mais correta(s) a tomar. É aqui que entra o formador.

O treinador deve deixar o atleta decidir (mesmo que a opção tomada não seja a que mais beneficia a equipa naquele momento) e intervir a posteriori, seja para felicitar o atleta pela boa decisão tomada, ou para mostrar quais seriam as melhores soluções para determinada situação, sendo que nunca deve interferir à priori e decidir pelo atleta.

Hoje em dia, infelizmente, este fenómeno ocorre com regularidade na formação de futebol em Portugal. Seja pelos exercícios apresentados no treino, pelo excesso de feedback por parte dos treinadores ou até pela interferência dos pais ou encarregados de educação, o atleta sente dificuldades em adquirir um processo de tomada de decisão sólido.

Através de conversas com outros treinadores, conjugadas com a observação de diversos treinos de formação, tenho constatado que a formação em Portugal tem muito para evoluir naquilo que toca aos exercícios apresentados em treino. A maioria dos exercícios realizados em treino são meramente analíticos, e que em nada contribuem para a aprendizagem da tomada de decisão (e de outros conteúdos que não são aqui abordados) por parte do jogador. É necessário recriar situações idênticas às de jogo, onde os jovens atletas tenham de tomar decisões o mais idênticas possíveis àquelas que realizam em competição. Esta deverá, no meu ponto de vista, ser a linha orientadora para a criação de exercícios por parte de qualquer treinador de formação. Depois do exercício criado, há agora que direcionar o feedback para intervir da melhor forma no processo de aprendizagem do jogador.

O feedback é, na minha opinião, o instrumento mais forte a favor do treinador para que este possa intervir no processo global de aprendizagem do atleta. Mas tudo o que ocorre em excesso, perde o seu eventual valor positivo. Não é de todo raro encontrar treinos de formação onde a tomada de decisão é completamente roubada aos atletas devido ao excesso de feedback por parte dos treinadores. “Finta, finta!”, “Passa, o colega está sozinho, passa!” ou “Vamos remata!” são palavras proferidas a alto e bom som, seja durante os treinos, seja durante a competição, que, efetuadas com regularidade, anulam qualquer possível tomada de decisão por parte do jogador. Não que não devamos, por exemplo, incentivar os atletas a rematarem quando estes se encontram isolados para a baliza, mas este tipo de feedback deve ser regulado com muita precaução. Passar um exercício (ou até mesmo um jogo de competição) a enunciar este género de feedbacks, a curto prazo retira toda a autonomia à equipa passando esta a ficar completamente dependente do treinador e quando o mesmo deixa de transmitir feedback os atletas sentem-se perdidos em campo. Já a longo prazo o jogador pode vir a demonstrar graves lacunas no que ao processo de tomada de decisão diz respeito.

Outro fator que condiciona bastante a tomada de decisão do atleta é a intervenção exterior à equipa: a intervenção dos pais ou encarregados de educação. Esta é, na maioria das vezes, muito difícil de controlar por parte do treinador, pelo que este deve encontrar estratégias para que os seus atletas o ouçam apenas a si e aos colegas de equipa. Chamar o jogador à atenção, fazendo-o compreender que o que importa são os colegas e o treinador, isto de forma a que os pais percebam este processo, pode em muitos dos casos diminuir esta intervenção exterior. Basta dirigirmo-nos a qualquer jogo de formação, seja nas idades mais tenras ou mesmo nos últimos escalões de base, e facilmente verificamos que a grande maioria dos pais passa o jogo inteiro a dar indicações ao seu pupilo, como se de um experiente treinador se tratasse. Possivelmente fazem-no na melhor das intenções, mas estão a prejudicar gravemente o seu educando. A interferência dos pais pode até ser mais grave que o caso de excesso de feedback do treinador, pois o jovem tem nos pais o fator máximo de obediência e por vezes até mesmo inconscientemente, podem prejudicar a sua tomada de decisão.

Concluindo, aos treinadores cabe a criação de contextos o mais idênticos possíveis ao jogo formal, direcionando o feedback para a aprendizagem do atleta, mas intervindo sempre a posteriori no que diz respeito ao processo de tomada de decisão. Aos pais cabe apenas abrir as portas do desporto aos seus filhos e apreciar a felicidade dos pequenos ao decidirem fazer aquilo que mais gostam … jogar futebol!

Artigo enviado por: Futebol Pensado

Fonte: Futebol de Formação por André Reis