O QUE A ESPANHA PODE NOS ENSINAR SOBRE O PROCESSO DE FORMAÇÃO NO FUTEBOL?

O Portal da Base Brasil participou de uma coletiva de imprensa com o diretor do Departamento de Projetos Esportivos, Juan Florit, que nos explicou como funciona o processo de desenvolvimento dos atletas da La Liga, na Espanha.

É fato que os últimos resultados da Espanha não são frutos do acaso. Planejamento talvez seja a palavra que melhor define a recente performance das equipes de base e das seleções nacionais.

Mas o que foi feito, na prática, nos últimos anos?

Precisamos voltar a 2021, mais precisamente ao dia 7 de agosto daquele ano. Em campo, Brasil x Espanha. Era a final masculina dos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Foto: Rafael Ribeiro / CBF

A equipe brasileira, comandada por André Jardine, venceu a partida por 2 a 1, com gols de Matheus Cunha e Malcom, conquistando o título olímpico. Bruno Guimarães, Gabriel Martinelli e Matheus Cunha participaram ativamente daquela conquista.

Mas guarde essa informação. Vamos seguir o fluxo da história.

Do lado da Espanha, o comandante era Luis de la Fuente, que foi mantido no cargo e, cinco anos depois, conquistaria a Copa do Mundo de 2026.

No grupo espanhol que perdeu para o Brasil estavam nomes como Unai Simón, Eric García, Marc Cucurella, Martín Zubimendi, Mikel Merino, Pedri, Dani Olmo e Mikel Oyarzabal.

As mesmas caras que haviam perdido para o Brasil.

Isso mesmo.

Sem caça às bruxas. Sem descartes midiáticos. Sem uma ruptura completa do planejamento.

A Espanha seguiu seu caminho.

Em 2022, o país lançou o Plano Nacional de Categorias de Base, tendo como principal objetivo corrigir e melhorar o processo de desenvolvimento dos atletas, por meio de uma metodologia que conectasse as áreas técnica e tática dentro das seleções espanholas.

“Acredito que esse seja um dos fatores que explicam o perfil dos jogadores da Espanha vistos na Copa do Mundo: em sua grande maioria, refinados tecnicamente e inteligentes taticamente.”

— Juan Florit

Segundo Juan Florit, o trabalho é realizado por meio de uma constante interação com os clubes, que são os verdadeiros responsáveis por aprimorar as capacidades técnicas, táticas e comportamentais dos atletas.

Como consequência, a seleção nacional consegue convocar os melhores jogadores para que tenham experiências internacionais no mais alto nível possível.

E aqui talvez esteja um dos pontos mais interessantes dessa história.

Em 2025, Carlos Santana, responsável pelo Portal da Base Brasil e, à época, supervisor da equipe Sub-17 do Palmeiras, esteve em um torneio na Espanha.

A impressão deixada pelas equipes espanholas foi de que, ao contrário do Brasil — embora existam exceções —, o objetivo principal parecia ser proporcionar aos atletas experiências suficientes para desenvolvê-los tecnicamente, taticamente e mentalmente, pensando muito mais na formação do jogador do que no resultado da competição.

Essa foi justamente uma das questões feitas a Juan Florit durante a coletiva.

“Penso ser verdade, e esta foi uma das grandes mudanças de mentalidade dos últimos 10 ou 15 anos na Espanha. Quando eu jogava nas categorias de base do Atlético de Madrid, o objetivo principal era superar o Real Madrid. E esse era o pensamento das demais equipes de formação.”

Juan Florit foi ainda mais direto:

“Agora, posso te garantir, acredite você ou não: se você perguntar aos diretores de base dos clubes da La Liga se eles preferem ver atletas acima da média no time profissional ou vencer competições Sub-15 ou Sub-17, 99% preferem a primeira opção.”

O jogador é o projeto.

Não é o resultado.

Não é o ranking.

Não é a classificação.

E talvez essa seja uma das maiores diferenças de mentalidade entre os dois modelos.

Florenti continuou:

“Converso com diretores de vários clubes que afirmam: se tivermos um atleta Sub-14 performando muito bem em sua categoria de origem e resolvermos que ele deve ser aproveitado em categorias superiores, mesmo que a equipe perca em qualidade, o projeto será sempre o jogador.”

E O QUE O BRASIL PODE APRENDER COM ISSO?

Talvez a grande lição espanhola não esteja em uma fórmula mágica, em um novo exercício ou em uma metodologia secreta.

Está na continuidade.

Um jogador que perde uma final de Sub-17 não deixa de ser um bom jogador.

Uma equipe que perde uma competição de base não necessariamente fracassou.

E um treinador que não conquista um título na formação não pode ser avaliado apenas pela quantidade de troféus que colocou na estante.

O futebol de base precisa ser analisado por aquilo que consegue entregar ao futebol profissional.

Quantos jogadores foram desenvolvidos?

Quantos chegaram ao nível competitivo esperado?

Quantos conseguiram compreender o jogo?

Quantos evoluíram tecnicamente, taticamente e comportamentalmente?

E, principalmente, quantos chegaram ao profissional preparados para competir?

Talvez seja justamente aí que esteja uma das principais reflexões para o futebol brasileiro.

Precisamos decidir o que queremos medir na formação.

Se o objetivo é formar jogadores, o jogador precisa ser o principal indicador de sucesso.

O resultado da competição continuará sendo importante. A competitividade faz parte da formação e vencer também ensina.

Mas talvez seja necessário inverter a lógica:

não formar jogadores para vencer competições, mas utilizar as competições como parte do processo para formar jogadores.

A experiência espanhola mostra que mudar essa mentalidade não acontece de um dia para o outro. É um processo construído ao longo de anos, envolvendo federação, clubes, treinadores, profissionais de formação e, principalmente, uma visão compartilhada sobre o que se espera de um jogador.

No fim, talvez a pergunta mais importante para o futebol brasileiro não seja:

“Quantos títulos conquistamos na base?”

Mas sim:

“Quantos jogadores estamos preparando para o futebol profissional?”

Porque, se o jogador é realmente o projeto, o troféu deveria ser consequência.

E não o objetivo final.

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