A importância da inserção do treinamento situacional para o goleiro

Frederico Alvarenga Bragaglia

A importância da inserção do treinamento situacional para o goleiro

Frederico Alvarenga Bragaglia[1]

[1] Bacharelado e licenciatura em Educação Física pela Universidade Salgado de Oliveira – Belo Horizonte. Goleiro profissional de 2005 a 2012 no Brasil e em Portugal. Sócio-proprietário na escola LF Academia de Goleiros – Belo Horizonte desde 2013. Atualmente é treinador de goleiros do Cruzeiro Academy na Tailândia.

Contato: bragaglia.fred@gmail.com

O treinamento de goleiros tem apresentado evolução constante, principalmente no Brasil. O país, que não possui tradição na área, vem apresentando tais melhorias nos goleiros e seus treinadores que tem exportado esses profissionais com maior frequência nos últimos anos – Europa e Ásia são destinos difundidos.

O treinador ou preparador de goleiros, como são chamados, tem a missão de deixá-los em forma nos quesitos físico, técnico, tático e psicológico, já que são poucos os clubes que possuem um psicólogo do esporte. Contudo, esse profissional se faz relevante, uma vez que a Psicologia do Esporte vem demostrando que as principais diferenças entre os atletas não mais se encontram nos âmbitos fisico, técnico e/ou tático, mas sim na sua capacidade de enfrentamento de situações específicas e muitas vezes estressantes geradas durante as competições (BARA FILHO et al., 2005). Essa asserção nos faz pensar ser necessário gerar um estresse semelhante em algumas sessões de treinamento semanal, com o intuito de melhor preparar o goleiro. Porém, para realizá-lo, o preparador deve necessariamente se aprofundar em todas as áreas envolvidas no treino.

Antigamente o posto de treinador de goleiros era ocupado quase que exclusivamente por exatletas, que viam na carreira uma alternativa à aposentadoria total no esporte mesmo que sem experiência. Já o mercado de trabalho atual tem se mostrado mais aberto a novos profissionais no ramo, incluindo acadêmicos, ex-atletas formados e os demais que continuam em busca de conhecimento e evolução profissional. Vale ressaltar que um dos debates mais acalorados no meio do treinamento de goleiros se refere à suposta oposição entre acadêmicos e ex-atletas, mas tal discussão não vem ao caso no presente momento.

No que diz respeito à evolução da rotina dos treinamentos de goleiros, os trabalhos que hoje observamos e que contam com mais fundamentação teórica e prática em muito contrastam com o método anterior em que se tinha uma reaplicação de treinamentos antigos e por vezes até monótonos. Alguns pontos devem ser considerados quando se avalia um treinamento dessa ordem: qual o melhor momento para se utilizar esse treinamento? Qual a importância desse treinamento dentro da programação geral? Este treinamento condiz com a faixa etária de trabalho? Caso as respostas sejam negativas, cabe ao treinador buscar alternativas para recriar esses exercícios e não somente reaplicá-los.

Outro questionamento válido consiste na união do treinamento situacional com o analítico específico para goleiros em uma mesma sessão de treinamento. Essa unificação dos treinamentos é bem-vinda, pois pode gerar uma melhora tanto na tomada de decisão e velocidade de execução do movimento técnico específico do goleiro, quanto na concentração do atleta, que não tem nenhuma ação pré-estabelecida.

Para Weineck (2000, p. 356), há uma complexa classificação das formas como se apresenta a velocidade no futebol: ·

  • Velocidade de percepção: por meio dos sentidos (visão, olfato, audição), absorver rapidamente as informações importantes para o jogo;
  • Capacidade de antecipação: sobre a base da experiência e do conhecimento do adversário prever as ações dos companheiros e adversários;
  • Velocidade de decisão: decidir-se no menor tempo possível por uma ação efetiva entre várias possibilidades;
  • Velocidade de reação: reagir rápido em ações surpresas do adversário, da bola e dos companheiros de equipe;
  • Velocidade de movimento sem bola: realizar movimentos cíclicos e acíclicos em alta velocidade;
  • Velocidade de ação com bola: realizar ações com bola em alta velocidade;
  • Velocidade-habilidade: agir de forma rápida e efetiva em relação às suas possibilidades técnico-táticas e condicionais.

O papel do treinamento situacional está em criar uma nova forma de avaliação do treinador para com os goleiros, sempre se perguntando qual goleiro conseguiria gerar uma resposta mais rápida em certa situação. Ao inserir situações de jogo dentro do treinamento, os goleiros são estimulados a praticar determinadas decisões, que corretas ou erradas acabam por aproximá-lo da realidade.

A figura abaixo ilustra um exemplo simples de treinamento analítico que nos permite inserir o treinamento situacional. Imaginemos que o atleta (Azul) efetua a mudança de direção e se posiciona para a bola que será enviada pelo treinador de goleiros (Branco) – podendo variar com a bola parada ou com a bola em movimento, desde que seja sem ações pré-estabelecidas.

Enquanto treinadores de goleiros, normalmente iríamos visualizar apenas a mudança de direção após o posicionamento e outras técnicas analíticas estabelecidas, a exemplo do punho, entrada e quedas. Não significa que o treinamento analítico não tenha sua eficiência na manutenção da parte técnica, especialmente para os mais jovens no aperfeiçoamento e na iniciação da técnica específica de goleiro, mas a inserção do treinamento situacional em todas as idades pode propiciar maior preparação para os atletas nas atividades em grupo e até mesmo nos jogos.

Portanto, cabe aos treinadores de goleiros inserir o trabalho situacional no microciclo de treinamento e analisar as melhorias e dificuldades que serão encontradas pelos goleiros no dia-adia do treinamento, reajustando e até mesmo dando ênfase futura na manutenção da técnica que o goleiro apresentou mais deficiência. Espera-se que este breve artigo tenha contribuído para área, pois contamos com poucas obras de referência em matéria de treinamento específico para goleiros.

Referências Bibliográficas
Bara Filho, M.G.; Ribeiro, L. C. S.; García, F. G. (2005). Comparação de características da personalidade entre atletas brasileiros de alto-rendimento e indivíduos não-atletas. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, 11(2), 115-120.