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A rua e o futebol: um caso de amor que NÃO poderia ter fim

A rua e o futebol: um caso de amor que NÃO poderia ter fim

Muito se fala na formação de jogadores de futebol atualmente, em especial sobre os jogadores brasileiros. Mas o que eles têm de diferente dos outros?

Os brasileiros ficaram marcados, merecidamente, como os mais habilidosos, capazes de realizar lances plástico e incríveis com a bola. Fatos estes ligados à cultura do país, ao clima favorável às práticas na rua e também a miscigenação da população brasileira. Neste sentido, muitas críticas surgiram sobre o fato do futebol brasileiro não formar jogadores como antigamente. Seria inteligente da nossa parte dizer que não formamos mais jogadores como antigamente? Será que podemos comparar os tempos?

Para enriquecer a discussão e tentar encontrar uma possível solução para este suposto problema encontrado no futebol pentacampeão, não podemos deixar de citar Alcides Scaglia, um dos mais famosos pedagogos do esporte no Brasil. Segundo Scaglia (2007) a cultura futebolística do brasileiro foi tecida em meio a um rico ambiente de aprendizagem de jogo, construindo uma teia de conhecimento de pequenos jogos/brincadeiras de bola com os pés, as quais eram criadas para resolver o problema de se jogar futebol, o que direta e indiretamente colaborou na construção de um modo todo particular de se jogar futebol no Brasil. Para Freire (2003) “a rua tem a pedagogia da liberdade, da criatividade, do desafio e até da crueldade. (…) No tempo em que havia fartura de espaço e de brincadeira, nem se fazia sentido falar de Escolinhas de Futebol. Dos campinhos de pelada saiam os Didis, os Garrinchas, os Gersons, os Romários”. Os tempos mudaram e não podemos negar. Os grandes espaços ao ar livre que tínhamos, hoje não se encontram mais na mesma disponibilidade e tamanho. As crianças não são vistas mais jogando nas ruas conforme antigamente. Alguns fatores que podem ser relacionados à diminuição destas práticas informais nestes ambientes, serão mencionados aqui, mas não serão discutidos: as construções aumentaram; o número de carros também; o avanço da tecnologia pode ser fator importante neste quesito, se pensarmos em vídeo games e celulares; a violência aumentou. Com essa mudança, o número e a importância das escolas de futebol aumentaram. Mas será que nas escolas de futebol os alunos aprendem os mesmo que aprenderiam nas ruas? Será que ele é capaz de criar as regras de um jogo previamente planejado pelo treinador? O aluno tem a capacidade de tomar a decisão de forma autônoma com o treinador o instruindo ao que deve ser feito? O treinador que coloca regra de 2 toques na bola está estimulando o jogador a dar um drible característico do futebol brasileiro? Os questionamentos levantados servem para nossa reflexão sobre a REALIDADE das escolas de futebol (sem generalização). Visto isso, levantemos a bola para os clubes de formação. Há relatos que clubes grandes do país separam uma parte do treino para realizar alguns “jogos na rua”, para que os jogadores pudessem experimentar a rua. Mas esse treino é liderado por alguém? Se sim, já está descaracterizado. Será que a inclusão dos jogadores nos processos de treinamento não tem sido de forma precoce? Como são realizados os treinamentos das equipes mais jovens em um clube?Mais do que isso, pensemos na utilização de algumas práticas da pedagogia de rua no futebol profissional. Será que daria certo? Os treinamentos possuem espaços para este tipo de atividade? Os treinos no futebol profissional são específicos para determinados contextos que envolvem todas as capacidades de uma forma sistêmica. A pedagogia da rua não seria melhor utilizada nas idades menores? Será que os jogadores que forem formados nesta abordagem chegam mais desenvolvidos no profissional? Seria um processo interessante a se aplicar, se os processos funcionassem como processo no Brasil. Para finalizar, devemos nos atentar a importância de se entender o seguinte ponto: a rua, por ela mesma, não é a responsável por formar o exímio jogador brasileiro. Muitos jogadores jogaram na rua e nunca foram profissionais. Mais do que isso, a superfície em que os jogadores costumavam jogar (o asfalto, o paralelepípedo e/ou a terra) não são os formadores de jogador. Não basta colocar um jogador para jogar descalço no asfalto do estacionamento. Devemos compreender que o ambiente que envolve o futebol de rua, como já citado acima, é o grande “responsável” pelo rico aprendizado obtido nele. Aprendizado este que era desenvolvido através das relações sociais com os amigos, da criação das regras para o jogar, da resolução de problemas, da “tabela” com a parede para vencer o adversário, da autonomia de poder tomar uma decisão sem alguém o guiar, do aprender com os erros das decisões tomadas de forma equivocada, da inteligência necessária para vencer jogadores mais velhos e mais fortes, da liberdade, da felicidade e entre outras capacidades que poderiam ser potencializadas direta ou indiretamente, de forma intencional ou não. Não há tempo para lamentações. Não podemos apenas colocar a culpa na falta de espaço para a realização destes tipos de jogos. Não podemos nos omitir do processo, enquanto formadores de jogadores. Então, cabe à nós, profissionais envolvidos na formação destas crianças (inteligentes e com capacidade de tomar boas decisões), produzirmos práticas e ambientes de aprendizado que consigam potencializar os indivíduos, não como o ambiente da rua (porque ele é insubstituível!), mas como um cenário rico, com estímulos adequados e capazes de se adequar ao mundo atual. Afinal, também somos responsáveis pelas mudanças (ditas ruins) no mundo. Que sejamos pelas boas daqui para frente.

Referências:

Fonseca, H., & Garganta, J. (2006).

Futebol de rua: um beco com saída: do jogo espontâneo à prática deliberada. Lisboa: visão e contextos.Freire, J. B. (2003).

Pedagogia do futebol. Autores Associados.Scaglia, A. J. (2007).

A criança, a pedagogia da rua e o estilo do futebol brasileiro? Disponível em: Universidade do Futebol. Acesso em: 26 abril, 2018.

Fonte: Ciência da Bola por Italo Resende