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O FUTEBOL E SUAS RESPONSABILIDADES SOCIAIS

O FUTEBOL E SUAS RESPONSABILIDADES SOCIAIS

Já parou para pensar no papel do esporte na formação pessoal e cultural de cada praticante? É notório que o esporte é um grande aliado social no combate às drogas, contribuindo de forma significativa no processo de formação dos valores éticos, morais, disciplinares, e para socialização e desenvolvimento da personalidade de crianças e jovens. Entretanto, o mercado atual permite a sustentabilidade de todos esses valores adquiridos?

O Brasil é um país carente, com uma desigualdade social alarmante, e vamos entrar um pouco nesse mérito para compreender o cenário atual. É importante deixar bem claro que compreender não é compactuar e demonstro como podemos ser mais conscientes do nosso papel na perpetuidade da formação pessoal do indivíduo.

Para ilustrar o tema vamos falar do futebol, a modalidade mais popular do país, que evidencia e expande o alcance e as responsabilidades da formação do atleta. Pois, além da paixão e da visibilidade, existe a conexão de histórias, gerações e sonhos de milhares de jovens que aspiram ingressar no futebol de alto rendimento. Milhões de pessoas através de apostas individuais e/ou familiares vislumbram alcançar a tão sonhada ascensão social e econômica através do futebol.

Jovens que muitas vezes não teriam grandes oportunidades, ou pelo menos não conseguem acreditar que teriam, saem em busca do sonho de se tornar um jogador profissional, deixando de lado a escola e as chances de se preparar para o mercado, que convenhamos, está cada vez mais exigente.

O número de talentos no país é enorme, entretanto a capacidade de retenção do mercado é de apenas 8% dos atletas de base. O dado apresentado não exige muito da estatística, mas é notório que temos um número de clubes limitados com atletas com a vida útil de aproximadamente 15 anos. Considerando que a demanda por atletas de alto rendimento é constante, a retenção dos atletas depende da liberação de outros. E é aí que mora o problema…se estatisticamente 8% dos atletas conseguem algum mercado para jogar, o que acontece com os outros 92% após a preparação de base?

Isso considerando apenas os clubes de expressão, pois existem tantos outros times de preparação que não possuem atividade profissional, que simplesmente agradecem os anos de contribuição do atleta e os desejam boa sorte para tocar a vida. Ou seja, o número da correlação de retenção de atletas é ainda pior.

A responsabilidade dos clubes formadores é enorme, pois eles passam a ser responsáveis pelo desenvolvimento dos jovens. Além de cuidar da higiene, alimentação, segurança, atendimento nutricional especializado, assistência social, psicológica e lazer, é preciso amparar, orientar e instruir esses jovens. Quando se fala em formar atletas dentro e fora de campo, importante deixar claro que o clube deve estar preparado para gerir pessoas e o futuro dessas pessoas.

Os gestores e as famílias dos atletas devem se unir para que o trabalho seja realizado com eficiência e a educação deve ser prioridade entre eles. Infelizmente em muitos casos os pais apoiam a decisão dos filhos de não estudar e essa decisão estatisticamente falando limita o alcance de preparação profissional para o mercado convencional. Convenhamos que o número está próximo de 99% dos atletas.

A família precisa entender o seu papel no processo de formação intelectual, e deveria atuar diariamente ao lado dos profissionais dos clubes, ouvir as orientações, acompanhar o desenvolvimento dos filhos, cobrar quando necessário e apoiar sempre. E os clubes por sua vez precisam entender o seu papel no processo de formação intelectual, e deveriam atuar diariamente ao lado das famílias, ouvir as preocupações, acompanhar o desenvolvimento dos atletas, cobrar quando necessário e contribuir sempre para futuro do jovem atleta.

Alguns clubes reconhecem a importância do estudo na formação dos atletas, posso citar aqui o Cruzeiro Esporte Clube, entidade onde trabalhei por mais de 09 anos e tive a oportunidade de acompanhar o dia a dia e a trajetória de alguns jovens. Quando assumi a Diretoria de Projetos Incentivados do clube, em busca de recursos para otimizar os trabalhos realizados na categoria de base, fiquei surpresa com o trabalho realizado, com a qualidade técnica dos profissionais, com a relação de zelo destes profissionais para com os atletas e com a qualidade do ensino oferecida pelo clube, em parceria com o colégio Rui Barbosa e a Uptime.

Eu gostava tanto da relação dos atletas com a escola e com os profissionais da Toca I, que ao lançar uma campanha para captação de captação de recursos, criamos uma espécie de “reality show”, intitulado Diamante Azul, no intuito de mostrar o belo trabalho realizado. Nesse trabalho contamos a trajetória de três atletas do elenco profissional, o goleiro Rafael, o lateral Mayke e o meia Elber, vindos da categoria de base, queridos pelos funcionários e referência para os jovens atletas em formação.

Participar de cada formatura, acompanhar a conquista daqueles que entraram para a faculdade e se preparavam para o mercado após a sua carreira como jogador era fantástico. E em um momento que parece que tudo no Cruzeiro foi mal feito, destaco essa preocupação como um grande feito e exemplo para os outros clubes.

Infelizmente não é a realidade da maioria dos clubes e dos atletas! Os clubes precisam entender que estão formando jovens que irão representar o nosso país dentro e fora de campo. E que cada vez mais as atitudes fora de campo refletem na performance do atleta dentro de campo.

O futebol se transformou em uma indústria, com uma vitrine gigante e precisa URGENTE de uma transformação.

Os gestores dos clubes precisam se profissionalizar para impactar e interferir de forma positiva nesse novo cenário.

Na vida, no convívio com as pessoas, na formação dos atletas, nos treinos, nas partidas de futebol, existem regras e essas regras precisam ser cumpridas em prol do desenvolvimento social.

E na gestão dos clubes? Existem regras?
Quais as penalidades para o não cumprimento dessas regras?

É preciso acabar com o empirismo, o fato de viver anos no meio do futebol não credencia uma pessoa a liderar um clube que movimenta milhões de reais, de pessoas e impacta diretamente nos gramados e na sociedade.

Chega de amadorismo!

Planejamento, processos, controle, transparência, capacitação profissional, gestão de pessoas e ética devem fazer parte do dia a dia dos clubes. Não é possível gerir sem analisar os números, quem contrata precisa saber quanto pode gastar, e deve respeitar o orçamento anual do clube. Não há como fazer mágica, todos devem ter uma visão estratégica a longo prazo, as receitas, os custos e os investimentos devem ser trabalhados de forma cautelosa e transparente.

O clube não tem um dono, por isso, conselheiros e funcionários devem atuar diariamente como fiscais, denunciando, protegendo e blindando o patrimônio que pertence ao povo.

O esporte, a cultura, a educação, a saúde e o país precisam de mudança! E o olhar para nossos atletas de base pode ser o passo inicial para a profissionalização sustentável do negócio que se chama FUTEBOL.

Deis Emília Chaves