Reflexões sobre o momento de transição defensiva e posse de bola

Reflexões sobre o momento de transição defensiva e posse de bola

A transição defensiva é hoje um dos momentos-chave, sobretudo para as equipas que procuram ter bola, com os seus jogadores mais projectados, oferecendo largura, procurando a profundidade e garantindo jogadores entre as linhas adversárias.

Sendo a transição ofensiva o momento de jogo onde se marca mais golos, fruto de uma Organização Ofensiva que deixa mais espaços nas costas, pela equipa estar mais aberta na procura do golo, é no momento da perda de bola que as equipas devem ter especial atenção. Sobretudo quando se comanda uma equipa que é constantemente obrigada a ter que assumir o jogo com bola. Por exemplo, equipa x baixa no terreno, a equipa y é obrigada a projectar-se. Mas para se projectar, para assumir, deverá ter em conta o momento em que perde a bola.

Uma reacção à perda de bola deverá ser treinada, tal como todos os outros momentos de jogo. No entanto, o factor psicológico do jogador é claramente diferente. Tenho a bola? Estou concentrado para atacar a baliza adversária. Perco a bola? Será que vou estar tão concentrado para rapidamente reagir a essa perda? No alto rendimento vemos imensas situações onde a perda de bola, a transição defensiva é feita com pouca intensidade. Intensidade leia-se a reacção e posterior  ocupação de espaços.

(RINUS MICHELS E JOHAN CRUYFF)

Noutros tempos, para mim a melhor equipa de sempre, ou aquela que tive oportunidade de presenciar, o Barcelona de Guardiola, apresentava uma qualidade incrível no seu momento de organização ofensiva. No entanto, e não menos importante era de realçar, sublinhar e anotar, o momento de perda de bola, transição defensiva, por parte dos homens de Pep. A rápida pressão ao portador da bola e também às linhas de passe tornava o jogo muito complicado para os adversários. Com percentagens altíssimas de posse de bola, e quando o adversário tinha a bola em sua posse era sobretudo no momento de transição ofensiva, que rapidamente era abafado pela equipa do Barcelona…Dava um total controlo sobre o jogo e sobre o adversário pelos homens da Catalunha.

E esse controlo vai ao encontro da importância, que eu dou no meu ponto de vista pessoal, ao facto dos jogadores serem obrigados a jogar juntos. A jogar perto. A oferecer linhas de passe ao portador da bola num espaço não muito grande. Ou seja, se no momento de Organização Ofensiva tenho vários homens na zona da bola para a manter e procurar o caminho para o golo, o que acontece quando perco a bola? Terei vários homens onde a bola foi perdida, e se todos reagirem pro-activamente após a perda, as probabilidades de sucesso serão necessariamente maiores.

(GUARDIOLA E SARRI)

 

O jogar em posse, o procurar controlar o jogo com a bola é também procurar defender.  Porque com a bola sou eu que escolho os caminhos a seguir. Sou eu que determino onde – provavelmente – poderei perder a bola. E se garantir superioridade numérica no momento onde tenho a bola, essa superioridade manter-se-à no momento em que a irei perder. Engane-se aqueles que pensam que ter a bola é o objectivo. Não é! Ter a bola é o caminho a seguir. O caminho a seguir para vencer e controlar os diferentes momentos de jogo. E por fim, ter a bola, porque todos aqueles que jogam, cresceram a querer ter a bola, a quererem ser protagonistas. Todos podem ser. Em todas as posições. E quanto mais tiver a bola, mais prazer darei aos jogadores de jogar o jogo. O prazer de criança que nunca deveremos apagar de um jogador, aliás – e repito, numa visão pessoal – deveremos sim exponenciar essa criança dentro de um conjunto de regras e organização.

Fonte: Raciocinar o Futebol por Leandro Silva